Autobiografia

Prefácio

O seguinte texto, sem data, foi redigido a mão pelo próprio irmão Paulo e se encontra no Arquivo do Mosteiro de São Bento da Bahia, disponibilizado como anexo no excelente livro de Paulo Veiga, fruto de uma pesquisa de mestrado, que conta a história de vida e obra do beneditino.

O seu conteúdo foi levemente editado para facilitar a leitura.

Ir. Paulo Lachenmayer, OSB monge da Bahia

Nascido aos 2 de janeiro de 1903 em Langenargen, Diocese de Rottenburg, como terceiro filho de Albert Lachenmayer, que tinha Firma Construtora, igualmente como o meu Avô e Bisavô. Casou-se em 1900 com a minha mãe Mathilde, filha do agricultor Bachmor. Depois de mim, nasceram mais dois irmãos e todos nós fomos batizados na Igreja paroquial, sendo que o meu irmão que me seguiu faleceu criança. 

Em 1905, o meu pai transferiu-se com toda a família a Ravensburg, onde continuou a sua Firma Construtora que se aguentou até a morte de meu pai em 1908. A minha mãe, agora viúva com quatro filhos, tinha poucos recursos que só dava para a nossa educação no ensino da escola primária, que durou sete anos. 

A irmã mais velha então cursou a Escola Comercial e achou bom emprego. Em 1930,  entrou no noviciado em Tutzing e recebeu o nome M. Revocata, vivendo hoje em Wessobrunn. 

Meu irmão que me antecipou em ano de idade, se preparou como engenheiro mecânico, trabalhando com todos os setores da Filial em Ravensburg da Firma Suíça Escher-Wyss e Cia de [?]. A sua dedicação foi premiada que se podia formar na Escola de Engenharia em Esslingen, pagando depois aos poucos o gasto da Firma. Casou-se em Ravensburg e foi lhe confiado o escritório de representação da firma, especializando-se em turbinas para a Baviera, com sede em Munique, com grande êxito e distinção com prêmio do Museu Alemão. Já aposentado faleceu ao 20 de fevereiro de 1975 e deixou a sua família em Munique. 

A caçula Berta, ainda muito jovem, ficou com parentes sem filhos em Ulm. Depois da morte deles, ela decidiu ser freira em Hegne, Casa Provincial na Alemanha da Congregação Suíça  de Ingenbohl, dos Irmãos da Santa Cruz com a Regra de São Francisco, dedicando-se em vários lugares no Jardim de Infância com muita vocação, chamando o interesse das crianças e ser respeitada pelos pais deles.

Meu nome Ernst Lachenmayer todos acharam de ser um curios[?], ou um contrassenso, pois ernst é sério e lachen é rir. A minha mãe  sempre me censurava e me achava diferente entre os meus colegas de idade, os quais sempre se precisava chamar para casa depois das aulas da escola. Quando me esperava, eu já estava no meu quarto desenhando. Com meu talento de desenhar e modelar chamei a atenção do meu Prof. do Ginásio, interessando-se a me ajudar particularmente e me dando material. 

Arte

Terminando os Cursos Primários, resolvi ser ornamentista e escultor. Pedi aprendizagem no Atelier de Arte Sacra do famoso professor Theodor Schnell em Ravensburg. Era o mais perito e aceitado artista para interiores de igrejas. Acompanhou o novo estilo profano, chamado Jugendstil, procurando dar-lhe sacralidade, e foi o mais fértil na época até o fim da guerra de quatorze. Em 1917 fiz o contrato para aprendizagem de quatro anos. Em dezembro de 1918 faleceu também a minha mãe, e como órfão de pai e mãe, o meu mestre me adotou, sendo ele solteirão sem sucessão. Mudou-se dele o interesse comigo e recebi uma formação singular. 

Recebi uma introdução em todos os setores da arte sacra em todos os setores da firma. Dividiu tudo o que ele tinha para o meu uso. Somente tinha que declarar que gastei para ele não perder tempo em procura. Já me confiou fazer os desenhos para os diversos setores da oficina, deixando os ornamentos da mastria dele. Inscreveu-me em todos os cursos voluntários noturnos em relação à minha formação. Tinha também de frequentar as aulas obrigatórias de formação e habilitação para os aprendizes no qual o meu mestre era Professor no setor de desenho dos aprendizes que se dedicam em Construção.

A habilidade que mostrei chegou a tal ponto que, quando ele pedia ao Reitor licença para fazer viagem de estudo por três meses em Hollandam e aceitar-me como substituto dele. O Reitor não hesitou em aceitar essa escolha pela capacidade, mas temia eu sendo o mais moço não era capaz de manter disciplina. Porém, à opinião da Personalidade do meu mestre, ele cedeu. Quem mais aprendeu nestes três meses fui eu, porque tinha de me [preparar?] para cada um. O orgulho do meu mestre não foi pequeno, quando recebeu os louvores dos êxitos.

Passados os quatro anos de aprendizagem, tive o privilégio de fazer o meu exame de oficial na própria oficina onde aprendi. Tive que enfrentar uma comissão do governo que veio de Stuttgart, capital do Estado de Württenberg. Fui o único examinado neste ano naquela região. Metralharam-me de todo lado, mas não perdi o controle entre as perguntas de me perturbar. De qualquer jeito me queriam apanhar indeciso porque eles eram concorrentes do meu mestre. Ao terminar apareceu o meu mestre, que recebeu os parabéns da boa nota que ganhei. Fiquei ainda mais um ano como meu mestre.

Vocação

Os caminhos da minha vida mudaram. Na minha paróquia tinha missões, pregadas pelos Padres Capuchinhos e me senti obrigado a assisti-las. Era 1922. Coincidiu-se que neste ano seis sacerdotes da abadia da Bahia estiveram na Alemanha. Entre eles também D. Beda Keckeinsen, filho do ex Reitor da firma do meu pai. Foi uma grande satisfação revê-lo. No mesmo ano se reabriu a vida monástica na Abadia vizinha da minha cidade, Weingarten. Tudo isso me deu a inspiração que minha profissão de arte não se completa integralmente sem viver a liturgia, considerando-a como alma e mestra funcional da arquitetura sacra. 

Resolvi acompanhar o grupo dos padres da Bahia. Quando revelei esta minha resolução ao meu mestre, ele se chocou. Como era homem de fé, foi resignado. Nunca ele cogitou que uma vocação dessa me atingisse e todo o plano dele comigo ficou destruído. Não podia compreender que um moço como eu largasse as condições que me esperavam. Não queria contrariar o que o Espírito Santo opera comigo, só me disse que agora, com a morte dele, também vai morrer a Firma. Antes de mim ele já tinha destinado um outro, que faleceu na guerra, e não queria mais tratar com um terceiro a continuidade da Firma que seu pai fundou.

Fiz parte da primeira turma de vocações para bahia que entrou depois da guerra de quatorze. Os meus colegas eram Dom Conrado Mettzer, Dom Clemente Maria, que se naturalizou com o nome de Silva-Nigra, e D. José Endres, que se ordenaram sacerdotes. Eu, como não queria largar a minha arte, entrei como irmão leigo. Chegamos à Bahia em 15 de agosto de 1922. Meu primeiro trabalho foi fazer um presépio que ocupou uma capela lateral. Depois fui aplicado em vários trabalhos domésticos. Em tempos livres me dediquei à heráldica e desenhos gráficos. Depois de um ano como postulante entrei no noviçado e Dom Abade D. Ruperto me deu como padroeiro monátsico o apóstolo São Paulo. Professei no dia 6 de janeiro de 1926. 

O sucessor abacial de 1930 foi Dom Plácido. Quando passou na Bahia na viagem à Treves, D. Anselmo Werner, arquiteto, o pediu Dom Abade fazer um projeto de reforma da Capela-Mor da Igreja abacial. Ele então pediu um levantamento exato ndela, no estado em que se encontrava. Para isso eu então fui incumbido de traçar. Resultou que eu tinha que levá-lo a Treves e fazer as plantas às ordens de D. Anselmo. Cheguei à esta Abadia no dia 25 de janeiro de 1931. Nunca me esqueço o fato que tinha de desenhar numa sala sem funcionamento de aquecimento com frio húmido. Assim desenhei os projetos da reforma sob orientação de D. Anselmo. A ideia dele não me agradou por ter incluído muitos degraus. Ainda fui aproveitado de fazer levantamento arqueológico de corações que foi depois da Páscoa e o meu D. Abade D. Plácido me deu licença para assistir a profissão da minha irmã Ir. M. Callista em Ke[], onde me encontrei com meus parentes. Mandei as cópias do projeto de D. Anselmo à Bahia, esperando a resposta, no sul da Alemanha onde tenho os meus parentes, a resposta da minha comunidade que foi negativa. Daí fui a Maria Laach que tem um bom número de irmãos artistas mas o D. Abade deles não não achou prudente por tratar-se de uma igreja barroca, estranho com a escola neste Mosteiro e me indicaram a Abadia Münster-schwarzach, onde entrou um Artista de Munique como Oblato como nome Frater Maurus Kraus, perito do esilo barroco e que dirigiu a escola dos artistas monges. Era uma Abadia de 500 religiosos. O Abade fundador, D. Plácido Vogel, me pediu para chegar no dia 14 de agosto para a inauguração de uma oficina de Arte e gozar de melhor impressão e acolhimento. O que mais me emocionou foi a união e a espiritualidade desta família monacal com a paternidade do velhinho Dom Abade. Tinha florestas, lagoas, campos, pedreiras e todas as oficinas com seus irmãos mestres, até corpo bombeiros. Fui logo acolhido na família. Aí se sentiu a grandeza do ideal de D. Bento. Era para mim um segundo noviciado que se marcou na minha alma para toda aminha vida monástica. Elaborei o projeto da Capela-mor do meu Mosteiro, que ficou apenas um estudo.

Em 1934, já com o regime nazista voltei de novo a minha Abadia em Salvador. Fiz várias reformas e instalações para interiores de antigas e novas igrejas dentro e fora de Salvador. Elaborei um projeto para a Capela-Mor da Catedral Basílica de Salvador que custou anos de receber a aceitação pelo Serviço do Patrocínio Histórico e Artístico Nacional que se instituiu. E para o mesmo fiz o levantamento de todo o meu Mosteiro que foi um dos primeiros monumentos tombados. Mas com que sacrifício! Já desde 1928 sofri com úlceras varicosas. Neste tempo nem podia ficar em pé e sem sentado. Desenhei todo o levantamento ajoelhado. Fiz uma reconstrução do projeto do arquiteto Frei Macário de S. João, autor do Mosteiro de São Bento da Bahia, também a planta do primitivo Mosteiro do tempo dos holandeses. Fui incumbido de fazer a planta para a ala da tipografia. 

Em 1960, fui chamado à Brasília para fazer com Prof. Oscar Niemeyer o interior da Catedral, que não chegou à execução. Fiquei desepcionado quando ela foi consagrada.

Fui agraciado em 1971 a tomar parte como leigo na Comitiva papal, acompanhando o Delegado do papa o então Arcebispo Primaz, Sua Excelência D. Eugênio Araújo Cardeal Sales, lucrando a condecoração da cruz “Pro Papa et Ecclesia”.

Apliquei-me na tipografia com desenhos gráficos e o maior êxito tinha com a ilustração do Missal Quotidiano, divulgado em todo o Brasil e impresso com a direção de D. Beda Keckeisen no [Tibento?] da Bahia. 

Outro campo no qual me integrei foi a Heráldica. Nos fins do século passado até 1930 ela sofreu uma decadência, que me animou ressurgir as criações dos brasões dos prelados,basear-se nas regras, caídas em esquecimento. Formei então uma heráldica eclesiástica fazendo por mais de 120 prelados os brasões. O êxito dos meus esforços não escapou ao autor Luís D. Gardel no seu livro “Les Armoiries Ecclesiastiques au Brésil (1551–1962)”, impresso no Rio de Janeiro 1963. Neste livro ele me deu um estacado lugar de honra. Assim caracterizei uma heráldica para as Universidades do Nordeste, comecei com as duas Universidades de Salvador.

Também me dediquei à numismática seguindo as regras antigas que foram desrespeitadas desde o começo do século passado.